Primeiro projeto de geração distribuída compartilhada solidária da Paraíba, o Orquídea Solar une desconto de até 75% na energia elétrica, cashback em moeda social e um fundo comunitário de reinvestimento — tudo gerido pelo Banco Jardim Botânico, na comunidade São Rafael, no Castelo Branco

No dia 15 de junho, às 19 horas, a comunidade São Rafael, do bairro Castelo Branco, em João Pessoa, será palco de um acontecimento raro na história da energia no Nordeste. A inauguração da Usina São Rafael marcará o nascimento da primeira usina fotovoltaica solidária da Paraíba ligada a um banco comunitário — uma conquista construída de baixo para cima, com protagonismo popular e financiamento coletivo.

Uma usina nascida da comunidade
O projeto é uma realização do Banco Jardim Botânico, instituição comunitária fundada em 2013 que há mais de uma década transforma a dinâmica econômica de territórios vulneráveis de João Pessoa por meio de crédito solidário, moeda social e incubação de empreendimentos populares. Integrante da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, o banco escolheu o modelo de Geração Distribuída Compartilhada (GD Compartilhada) para dar o próximo passo: colocar a energia solar ao alcance de quem mais precisa.
A modalidade de GD Compartilhada, regulamentada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), permite que a eletricidade gerada por uma única usina seja distribuída como crédito entre múltiplos consumidores associados — sem que cada família precise instalar painéis no próprio telhado. Para comunidades de baixa renda, onde isso seria inviável financeiramente, o modelo representa uma porta de entrada real para a energia solar.
Como o dinheiro funciona na prática
A engenharia financeira do projeto é tão inovadora quanto a engenharia elétrica. Ao receber créditos de energia da usina, cada beneficiário paga ao banco comunitário um valor inferior ao cobrado pela concessionária — com a diferença revertida para dentro da própria comunidade.
O caminho da energia e do dinheiro:
- A Usina São Rafael gera energia solar e injeta os créditos na rede da concessionária;
- Os créditos são distribuídos entre as famílias associadas, abatendo parte da conta de luz de cada uma;
- Cada família paga ao Banco Jardim Botânico um valor menor do que pagaria à concessionária — a diferença é o benefício direto;
- Parte do pagamento retorna como cashback em Orquídeas, a moeda social local, usável nos comércios parceiros do território;
- 50% da receita alimenta um fundo renovável para ampliar a usina e conectar novas famílias.
Exemplo real: família com consumo de 200 kWh/mês
- Energia fornecida pela usina: 100 kWh
- O que pagaria à concessionária: R$ 60,00
- O que paga ao banco comunitário: R$ 30,00
- Cashback recebido em Orquídeas: ≈ R$ 15,00 em moeda social
- Custo final líquido estimado: ≈ R$ 15,00
- Economia total em relação à concessionária: até 75%
Moeda social como elo comunitário
O cashback em Orquídeas — a moeda social emitida pelo Banco Jardim Botânico — não é um detalhe secundário do projeto. É, na verdade, o fio que costura a iniciativa ao tecido econômico local. Ao receber parte do benefício em moeda que só circula nos comércios do território, os moradores automaticamente fortalecem padarias, feiras, farmácias e prestadores de serviço do próprio bairro. A energia solar, assim, gera dois tipos de dividendo: na conta de luz e na economia do entorno.
A estratégia segue a lógica dos bancos comunitários de desenvolvimento, que há décadas demonstram que moedas locais aumentam o número de vezes que cada real circula dentro de uma mesma comunidade antes de “vazar” para fora — um fenômeno que economistas chamam de multiplicador local.
Além da energia: formação e autogestão
O Projeto Orquídea Solar não se limita à geração de eletricidade. O plano inclui um programa de formações em eletricidade básica e autogestão, que vai capacitar moradores para operar e manter a própria usina de forma independente no futuro. O objetivo é que a comunidade não apenas consuma energia solar, mas compreenda, gerencie e expanda a infraestrutura — eliminando a dependência de empresas externas para a manutenção do sistema.
A capacidade inicial do projeto — 8 famílias e até 2.000 kWh/mês — foi calculada de modo a garantir viabilidade operacional desde o primeiro dia, com crescimento planejado sustentado pelo fundo comunitário de reinvestimento. A cada novo ciclo, mais famílias poderão ser integradas ao sistema.
Inauguração aberta ao público

A solenidade reunirá apresentação do modelo operacional da usina, uma roda de conversa sobre transição energética solidária e um ato simbólico de entrega das primeiras moedas sociais Orquídeas aos beneficiários do projeto. A expectativa é que o evento sirva também como vitrine para outras comunidades e municípios da Paraíba interessados em replicar o modelo.
“Não se trata apenas de gerar energia limpa, mas de gerar autonomia, justiça climática e economia solidária. É o povo no controle da sua própria transição energética”, relatou Daniel Pereira, do Instituto Voz Popular.
Contexto: energia solar e direito à cidade
O Brasil é um dos países com maior incidência solar do planeta, mas o acesso a essa fonte limpa segue profundamente desigual. Enquanto condomínios de classe média e empresas instalam usinas nos telhados e abatam centenas de reais nas faturas mensais, famílias de baixa renda — justamente as que mais sofrem com o peso da conta de energia no orçamento — permaneciam historicamente excluídas desse benefício. O modelo de GD Compartilhada surge como resposta regulatória a essa distorção, e o Banco Jardim Botânico foi pioneiro em combiná-lo com as ferramentas da economia solidária para potencializar seu impacto social.
Se o projeto confirmar suas projeções e escalar para novas comunidades, a Paraíba pode se tornar referência nacional em um modelo que outras redes de bancos comunitários já observam com interesse: o da usina solar como infraestrutura comunitária, ao lado da escola, do posto de saúde e da praça.
Redação Gabinete Paraíba com Ascom Instituto Voz Popular
